terça-feira, novembro 21, 2017

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (6)

O Abandono da Verdade

“Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade? Tendo dito isto, voltou aos judeus e lhes disse: Eu não acho nele crime algum” (João 18.37-38).
A pergunta de Pilatos foi feita a Jesus, durante o interrogatório que ao final levou à sua crucificação. O que nos interessa no momento é o fato curioso e paradigmático que Pilatos não esperou para receber uma resposta à sua própria pergunta, “o que é a verdade”. Mas uma coisa fica clara: a busca da verdade sempre esteve presente nos grandes momentos da história. Todavia, nossa geração ficará conhecida como aquela que abandonou esta busca da verdade. Como Pilatos, faz a pergunta e volta as costas para não ouvir a resposta.
Nossa geração está fortemente influenciada por uma reação ao Racionalismo que marcou os séculos anteriores. As épocas anteriores à nossa foram caracterizadas pela cosmovisão romântica e pelo cientificismo materialista, bem como pelo marxismo, fascismo, positivismo e existencialismo.
Tudo isto teve origem no Iluminismo, movimento surgido no início do século XVIII, que era em vários aspectos uma revolta contra o poder da religião institucionalizada e contra a religião em geral. Predominou então o racionalismo e sua teoria que o conhecimento mais fundamental é baseado na razão, e que a verdade só pode ser alcançada através da análise racional, independente de dados empíricos, atitudes emotivas ou dogmas. A razão tornou-se a medida de todas as coisas.
Nossa época tende a rejeitar este conceito bem como a ideia de que existam verdades absolutas e fixas. Toda verdade é relativa e depende do contexto social e cultural onde as pessoas vivem. Os filósofos, estudiosos, teólogos, artistas, pensadores e autores famosos de hoje tendem a rejeitar o ideal das gerações passadas de que a verdade pode ser alcançada através da análise racional. Considera-se hoje que a promessa do Iluminismo, de encontrar com base na razão uma resposta unificada para a realidade, falhou completamente. Assim, abandonou-se a busca de verdades absolutas e fixas, que caracterizou o período anterior e rejeitou-se igualmente o conceito de dogmas e definições exatas. Cada pessoa analisa as coisas de acordo com o que pensa e o que crê.
Nesta visão atual, se busca uma sociedade pluralista, onde exista a convivência amigável entre visões diferentes e opostas. Isso é chamado de pluralismo inclusivista. Espera-se que as opiniões cedam espaço umas às outras, particularmente aos pontos-de-vista marginalizados, aqueles que foram calados por gerações pelas vozes dominantes da sociedade. Nessa sociedade pluralista e inclusivista, a opinião e as convicções de todos têm de ser respeitadas, porque a opinião de um é tão verdadeira quanto a opinião do outro. E já que não existem conceitos absolutos especialmente na área da moral e da religião, não se pode tentar convencer outro a mudar de religião ou de comportamento. Tornou-se politicamente incorreto criticar a conduta moral de alguém.
Todavia, esta desistência de se alcançar a verdade, em todas as áreas da vida, trouxe consigo consequências visíveis em muitos dos campos do saber, da vida, do comportamento e na educação.
Primeiro, criou um caos epistemológico. Não se pode mais falar na possibilidade da compreensão verdadeira de textos antigos e modernos. Se levada a sério, esta teoria significaria o fim da possibilidade da transmissão de conceitos, ideias, e verdades de uma geração a outra, e mesmo de uma pessoa à outra, através das palavras escritas. Pensem no que isto significaria na área de educação.
Segundo, o abandono da busca da verdade e a sua possibilidade, traz em seu bojo o desespero existencial, sob a forma da incerteza da verdade, da realidade e da própria existência, o que joga as pessoas numa esquizofrenia prática, tendo por um lado de conviver com verdades absolutas no dia a dia – tais como sinais de trânsito e normas da empresa – e o relativismo absoluto que domina as demais áreas.
Terceiro, ao se perder a esperança de que existam verdades absolutas, as expressões humanas artísticas, como a música, a arte, a poesia, o cinema, o teatro, acabam por refletir este desespero existencial, como se percebe claramente na obra de muitos artistas antenados para o mundo de hoje. Alguns mais honestos conseguem perceber uma inconsistência ética no seu comportamento. É comum vermos artistas negando a verdade absoluta e, ao mesmo tempo, lutando pelos “direitos humanos” ou pelo estabelecimento da “justiça”, especialmente nos países do terceiro mundo.
Quarto, com o abandono das verdades absolutas, não há parâmetros objetivos a serem seguidos. Contudo, o ser humano tem sempre que possuir um paradigma, porque ele é dependente de algo a que seguir. O parâmetro passa ser o sentimento. Daí começou a surgir a ideologia do “sentir-se bem”, o que inevitavelmente acaba por levar ao egoísmo, que busca sua felicidade à custa do bem dos outros.

O grande desafio para a universidade é entender os tempos em que vivemos e fazer jus ao nome universidade, que originalmente designava o conceito de que existiam verdades absolutas que uniam e davam coerência à enorme variedade dos campos do conhecimento. No caso de universidades confessionais cristãs, lembremos que a visão cristã de mundo pretende oferecer este referencial unificador e balizador.

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

3 comentários

comentários
Virginia
AUTOR
21/11/17 16:50 delete

Questão interessantíssima. Me deu argumentos para debater com colegas de trabalho esquerdistas! obrigada!

Estou conhecendo o blog agora e amando. Glorifico a Deus pelas vidas de vcs e oro para que Ele os abençoe e fortaleça a cada dia.

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21/11/17 20:31 delete

É triste saber que a nossa época é tão relativista assim. Até na opinião popular vejo a influência do relativismo. "Mas eu acho que é relativo", "muda de pessoa pra pessoa" e a famosa "tudo é relativo". É como viver no espaço, longe de tudo. Sem nenhuma referência não é possível indicar o que é cima ou baixo, direita ou esquerda, fundo ou raso... O caráter e a natureza de Deus, para nós cristãos, não podem deixar de ser nosso "norte", nossa direção, para assim combatermos de frente esse relativismo moderno.
Vamos juntos cristãos, nessa guerra cultural, ocupar os espaços que eles tomaram!

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22/11/17 15:54 delete

Estou estudando uma conceito emergente na área da educação chamado Pensamento complexo. Esse conceito trata-se de uma nova forma de abordar a realidade dizendo que o método de pesquisa que procede com sistematização dos dados e a especialização é inadequado e resulta em cegueira científica porque a realidade é instável, que as partes de algum objeto de pesquisa nunca pode ser separado do todo no momento de estudo porque neste relacionamento o todo ESTÁ SEMPRE MODIFICANDO AS PARTES (e não dando-as significado) . Os defensores desse conceito criticam o conceito antigo de uma verdade absoluta caracterizando como modelo determinístico, eles criticam o calculo, o modelo cartesiano-newtoniano de pesquisa, e com especulações filosóficas usam de conhecimentos do campo da ciência natural e social para "fundamentar" seu conceito. Os cabeças desses pensamentos são Edgar Moran e Thomas Kuhn Capra. Em uma busca por pensamento complexo no google acadêmico é possível encontrar um artigo do Moran discorrendo sobre este pensamento. Estou estudando o impacto disso no campo da física e o que já concluir é que se essa tendência pegar, como parece estar acontecendo, vai ser catastrófico para a ciência e a educação.

Usei fundamentos entre aspas porque eles substituíram essa palavra pela palavra paradigma ao escreverem sobre seu conceito, já que a palavra fundamento está relacionada a prova e evidencia.

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