quarta-feira, dezembro 20, 2017

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (10)

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (10)

Cristianismo e Pesquisa Científica

Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade. Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares” (porções escolhidas do Salmo 8).
A pesquisa é um dos três eixos que compõem a universidade moderna. O que poucos sabem é que a pesquisa moderna, como a conhecemos hoje, nasceu em berço cristão. A busca do conhecimento mais profundo das leis que regem o mundo foi, no início, em parte obstruída pelos conceitos panteístas das antigas civilizações e culturas. Por panteísmo, nos referimos à visão de mundo em que a natureza é vista como uma extensão de Deus, o qual é sua alma ou princípio vital. Panteístas acreditam que tudo é Deus e Deus é tudo. Esta visão de mundo, embora com diferentes matizes, é a que dominou as grandes civilizações antigas e que consideramos como pagãs. Este é um dos conceitos básicos do antigo (e moderno) paganismo.
Damos crédito a estas civilizações antigas que fizeram grandes contribuições para o avanço do conhecimento científico da humanidade. Descobertas surpreendentes ainda hoje nos impressionam quanto à capacidade dos antigos para a engenharia, astronomia e tecnologia em geral. Todavia, a visão panteísta destas civilizações, como a China, Índia, Egito, Mesopotâmia, impediu que qualquer uma delas lançasse as bases necessárias que permitisse uma revolução científica. A razão é simples.
O panteísmo ensinava que Deus é o mundo e o mundo é Deus. Numa visão destas, as pessoas temiam provocar os deuses com suas indagações sobre o mundo. Pesquisar os fenômenos naturais equivalia a penetrar nos segredos ou na intimidade dos deuses. Conforme Henry Frankfurter, em sua obra Before Philosophy (1960), a relação do homem com a natureza era de adoração e veneração, e não de análise e de entendimento. Era preciso uma visão de mundo que libertasse o homem deste temor.
A fé cristã, com sua visão de mundo, liberou o homem do temor da natureza. Seu fundamento é o primeiro versículo da Bíblia, “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1.1). Da perspectiva cristã, o sol, a lua, as estrelas, as montanhas, os rios, o mar e os animais não eram deuses e nem tinha poderes místicos que neles habitavam. A natureza foi dessacralizada à medida que o Cristianismo avançou na Europa, e conforme diz Max Weber em A Ética Protestante (1951), foi desvestida de seu poder. Weber fez estudos comparativos sobre a religião e a economia de culturas como a chinesa, indiana e o antigo Judaísmo. Ele concluiu que a definição do protestantismo de Deus, como um ser transcendente que não mora na floresta, no deserto, nas montanhas ou no mar, também contribuiu para o que chamou de “conduta racional prática,” necessária para o desenvolvimento capitalista sustentado. Para ele, uma vez que Deus é um ser transcendente, e só tem interesse em seres humanos, então não há nada sobre a natureza do mundo ou os seus habitantes que iniba a utilização da sociedade e a transformação da natureza (p. 26). É claro que Weber não está sendo justo com o que os protestantes pensam sobre Deus – pois para eles, Deus também é imanente. Todavia, a conclusão do seu raciocínio está correta.
Pois, desta forma, o homem pode começar a pesquisar a natureza sem receio religioso – muito ao contrário – e iniciar realmente o seu conhecimento e o domínio da natureza. O cristianismo, após expandir-se e conquistar o mundo ocidental, abriu as portas para a pesquisa moderna com sua cosmovisão teísta criacionista. É evidente que a moderna academia rejeita a visão teísta de mundo; todavia, não pode negar-lhe o direito de paternidade.
Uma outra contribuição da visão de mundo cristã é a afirmação de que o mundo existe mesmo, e que não é uma mera projeção de nossa mente ou uma extensão de nosso espírito criador. Pode parecer uma afirmação redundante. Mas quando pensamos que para muitos não existe uma realidade concreta, palpável, tangível, lá fora, ela adquire relevância. E desta forma, a pesquisa se faz possível, pois temos um objeto concreto e passível de análise. Quem não acredita que o mundo existe de fato, pouco interesse tem em pesquisá-lo.
O cristianismo oriundo da Reforma protestante também contribuiu de forma decisiva para o surgimento da moderna pesquisa ao defender que procurar entender nosso mundo faz parte do mandato cultural que Deus havia dado ao homem no ato da criação: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gênesis 1.28).
Diante disto, pesquisadores cristãos deveriam ter em mente os seguintes objetivos no decorrer de seu trabalho. Primeiramente, através da tecnologia, usar responsavelmente os princípios, leis e recursos do cosmos para o bem da humanidade e do meio ambiente. Ainda, ele deve ser motivado a conhecer melhor o universo onde Deus o colocou e assim conhecer ao próprio Deus, conhecer-se melhor e ao seu próximo.
Ele deve realizar seu trabalho com profunda humildade diante do mistério da criação e da sua grandiosidade. É a atitude que vemos no Salmo 8, que está reproduzido no início deste capítulo. Também, cheio de gratidão a Deus, o autor e sustentador de todas estas coisas. Assim, ele se esforça para ser o melhor possível – para ele, a pesquisa é vocação, é ministério!

No livro da natureza aprendemos sobre Deus. Mas, existe um outro livro onde Deus se revela, inclusive de forma mais completa: a Bíblia. E não há contradição entre estas duas revelações. O pesquisador cristão procura conhecer a ambos, para uma visão mais ampla e abrangente do mundo e de seu Autor.

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

2 comentários

comentários
Alex Costa
AUTOR
1/1/18 10:50 delete

Rev. Augustus, quais livros me recomendaria sobre criacionismo?

Abraços,
Alex

Responder
avatar
5/1/18 11:32 delete

Excelente artigo.

Um literatura muito interessante sobre o tema: A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna - R. Hooykaas. UNB, polis

Responder
avatar