segunda-feira, dezembro 04, 2017

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (8)

Fundamentos

“Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Salmos 11.3)
Esta citação bíblica nos ensina a necessidade de fundamentos para podermos praticar e viver a justiça. Assistimos hoje ao avanço de uma mentalidade cuja característica é a demolição dos fundamentos da sociedade ocidental cristã, como a conhecemos.
Esta mentalidade é chamada por muitos estudiosos de pós-modernidade. Como o nome indica, a pós-modernidade é o período da história que veio para tomar o lugar do período moderno. Este tempo foi iniciado, conforme se pensa, com a falência do comunismo, com a derrocada do muro de Berlim, em 1989, e com o insucesso da economia, dos organismos mundiais e da tecnologia e ciência modernas de resolver os problemas mais agudos da humanidade.
Passou-se a questionar os fundamentos anteriormente estabelecidos e começou a questionar-se também a existência de verdade absoluta em todas as áreas da vida e do conhecimento humanos.
A pós-modernidade não é propriamente um movimento organizado, mas um espírito, uma maneira de ver a realidade, uma mentalidade, cuja influencia se percebe na academia, na religião, na arte, na cultura, na economia.
Nessa postagem eu gostaria de refletir sobre as oportunidades e desafios que esta mentalidade pós-moderna representa do ponto de vista do cristianismo histórico. O ponto central é este do Salmo 11.3 – é preciso fundamentos para que se possa fazer justiça.
Vejamos, primeiramente, os fundamentos que a mentalidade pós-moderna tende a derrubar. No topo da lista temos o fundamento da existência de valores, conceitos e verdades absolutos e universais.
O pensamento pós-moderno rejeita o conceito defendido pela modernidade de que existam verdades absolutas e fixas. Toda verdade é relativa e depende do contexto social e cultural onde as pessoas vivem. Cada um percebe a verdade de sua própria forma. Não existe “verdade”, mas sim “verdades” que não se contradizem, mas se complementam. Isso inclui verdades religiosas. Conceitos como “Deus” são totalmente relativos. A única “inverdade” que existe é alguém insistir que existe verdade fixa e absoluta!
Em seguida vem o fundamento da racionalidade. A mentalidade pós-moderna rejeita o ideal do pensamento moderno de que a verdade pode ser alcançada através da análise racional. Considera que a promessa do Iluminismo, de encontrar uma resposta unificada para a realidade falhou completamente. A pós-modernidade, assim, abandonou a busca de verdades absolutas e fixas, que caracterizou o período anterior, rejeitando igualmente o conceito de dogmas e definições exatas.
Para a mentalidade pós-moderna, a mensagem cristã é muito ofensiva, pois esta apresenta a Bíblia como única revelação de Deus, a existência de absolutos morais, e o Evangelho como sendo a verdade.
Temos também o fundamento da análise crítica. Surgimento do conceito do politicamente correto – Na mentalidade pluralista e inclusivista, a opinião e as convicções de todos têm de ser respeitadas. A razão para esse “respeito” é que a opinião de um é vista como tão verdadeira quanto a opinião do outro. Assim, torna-se politicamente incorreto criticar as opiniões, a conduta e as preferências morais, políticas, religiosas de alguém.
Deve-se amenizar os comentários críticos com eufemismos ou generalidades que não ofendam. Já que não existem conceitos absolutos na área de religião e de moral, não pode haver proselitismo, isto é, alguém tentar convencer outro a mudar de religião ou de comportamento.
Por fim, menciono o fundamento do certo e do errado. Com o abandono das verdades absolutas, não há parâmetros objetivos a serem seguidos. O pós-modernista Steven Connor (Postmodernist Culture, 1989), diz que “desde a música ao turismo, à TV e mesmo à educação, o consumidor não quer mais aquilo que é bom, mas ele quer experiências”. O parâmetro passa ser o sentimento, a experiência. Daí começou a surgir a filosofia do “sentir bem”.
Um exemplo pertinente do que estamos dizendo é a declaração do educador e ex-pastor presbiteriano Rubem Alves, numa fala durante uma cerimônia por ocasião da Reforma Protestante no Rio de Janeiro (2003):
Gente, isso aí é uma das coisas mais centrais do espírito da Reforma que significa que nós somos livres, não é? Não é pecado pensar errado, porque ninguém sabe o que é pensar certo. Então a gente pode pensar do jeito que for, que não tem ortodoxo e herege. E quem quiser dizer que o outro é herege não está entendendo direito o espírito da Reforma.
Contudo, há vários aspectos positivos na pós-modernidade. Primeiro, ela acentua o conceito de tolerância. Segundo, estimula os estudos acadêmicos sobre multiculturalismo, gênero e sexualidade. Ainda, ela inibe a discriminação preconceituosa por conta de gênero, raça e posição social e abre espaços na academia para integrantes de grupos minoritários. Por fim, mencionamos que ela desperta os estudiosos para o papel do horizonte do indivíduo na percepção da realidade.
Há também uma certa inconsistência axiomática. Pós-modernos negam a existência de verdades universais e absolutas. Entretanto, defendem um axioma que consideram absoluto e universal, “não existem verdades absolutas”. Precisam partir do fundamento da existência de verdades absolutas para poder argumentar que elas não existem.
Uma outra inconsistência é aquela da atitude. Pós-modernos defendem o conceito de tolerância como a total complacência para com o pensamento de outros quanto à política, sexo, religião, raça, gênero, valores morais e atitudes pessoais. Entretanto, existe claramente um ponto de vista que eles não toleram: o daqueles que insistem em se apegar a conceitos e valores definidos e objetivos.
Não podemos esquecer a A. A. inconsistência religiosa. Pós-modernos pregam o fim do cristianismo por ser uma religião absolutista, que crê em verdade, revelação, certo e errado. Porém, a religião por excelência da pós-modernidade é o antigo paganismo, que ressurge modernamente com seu dualismo cósmico entre o bem e o mal. Não consegue se livrar do conceito de que existe o certo e o errado, o bem e o mal.
Por fim, vem a inconsistência ética. É comum vermos pós-modernistas negando a verdade absoluta e, ao mesmo tempo, lutando pelos “direitos humanos” ou pelo estabelecimento da “justiça”, ou em favor da ecologia, especialmente nos países do terceiro mundo. Os pós-modernistas acabam caindo na inconsistência de aceitar verdades universais para resolver situações específicas. Eles aceitam regras gerais de coletividade ética, mas afirmam não existir padrão de verdades.
Os desafios que a pós-modernidade traz para uma universidade confessional são grandes. Primeiro, o desafio de não sermos um gueto. Segundo, o desafio de não engolirmos a mentalidade pós-moderna, que às vezes se oferece sob capa acadêmica, de forma acrítica. Por fim, o desafio de mantermos uma adesão a fundamentos éticos e morais em meio ao relativismo e pluralismo da nossa época.
Gostaria de sugerir que o cristianismo tem uma visão de mundo e de realidade que respeita e reafirma todos os fundamentos que nossa lógica e bom senso declaram existir.

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.

1 comentários:

comentários
4/12/17 22:57 delete

Se o que move o espírito pós modernista é a filosofia do sentir -se bem, qual seria então a maneira, de nos cristãos, reagirmos a está geração? Será que deveríamos resistir a esses tempos de forma negativa: Observando, refletindo e formulando os desvios da realidade que aparecem, e depois trazer ideias que vão fundamentar o que pensamos formando assim barreiras à filosofia do sentir-se bem. Ou será que deveríamos resistir positivamente, procurando desenvolver a nossa própria "filosofia" do sentir-se bem, para que aconteça de nos desapegarmos das distorções pela força do apego à verdade. Penso que a primeira via é necessária não para nos, mas para o mundo debaixo d agua, no entanto o fôlego das instituições cristãs constituída por homens e mulheres de cristo se encontra no conhecimento de Deus, por onde é possível contemplar a Sua majestosa beleza e encantar-se com as maravilhas do Servo-Rei e Deus-Homem, porque não há prazer maior do que olhar para o rosto de Deus. Alguém disse: Fizeste-nos para Ti, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti.
Faculdades e hospitais ou qualquer outro empreendimento de cristãos deve permanecer como sendo empreendimento de cristãos.

Responder
avatar