terça-feira, janeiro 02, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (11)

Para Quê Entender o Mundo?

De acordo com as Escrituras, Salomão, rei de Israel, foi um dos maiores pesquisadores da Antiguidade oriental. Conforme o registro, ele “discorreu sobre todas as plantas, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que brota do muro; também falou dos animais e das aves, dos répteis e dos peixes”. Seu conhecimento se tornou famoso, a ponto de vir gente de todos os povos beber de sua vasta erudição (1 Reis 4. 29-34).
Entretanto, durante a maior parte de sua vida, este notável pesquisador esteve frustrado quanto ao que havia aprendido. Ele manifestou esta frustração em diversas falas dirigidas ao seu povo, e que foram registradas em um livro, chamado Eclesiastes, ou O Pregador, que posteriormente foi incluído no cânon bíblico.
Algumas das suas frustrações estão reveladas no parágrafo abaixo:
“Eu, o Pregador, venho sendo rei de Israel, em Jerusalém. Apliquei o coração a esquadrinhar e a informar-me com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu; este enfadonho trabalho impôs Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir. Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento. Aquilo que é torto não se pode endireitar; e o que falta não se pode calcular. Disse comigo: eis que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém; com efeito, o meu coração tem tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento. Apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a saber o que é loucura e o que é estultícia; e vim a saber que também isto é correr atrás do vento. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta ciência aumenta tristeza” (Eclesiastes 1.12-18).
O pesquisador Salomão considerou a busca do conhecimento como algo enfadonho, uma espécie de trabalho imposto por Deus ao homem. O enfado provavelmente era decorrente do fato que o conhecimento não era capaz de endireitar o que era torto. A impotência do conhecimento diante da realidade da vida deve ter levado o pesquisador ao desânimo, quando escreveu estas palavras: “quem aumenta ciência aumenta tristeza”. Quanto mais ele veio a conhecer, a acumular sabedoria e ciência, mais descobriu sua impotência em mudar a realidade humana. Daí sua tristeza.
Além disto, Salomão percebeu que todo seu conhecimento não fazia a menor diferença em termos práticos: o que acontecia com o sábio pesquisador, acontecia com o ignorante e tolo. Qual a vantagem, pois, de ser sábio, pergunta ele:
“Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o estulto anda em trevas; contudo, entendi que o mesmo lhes sucede a ambos. Pelo que disse eu comigo: como acontece ao estulto, assim me sucede a mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria? Então, disse a mim mesmo que também isso era vaidade. Pois, tanto do sábio como do estulto, a memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto! Pelo que aborreci a vida, pois me foi penosa a obra que se faz debaixo do sol; sim, tudo é vaidade e correr atrás do vento” (Eclesiastes 2.14-17).
À medida que se enfiava ainda mais em suas pesquisas, Salomão refletia sobre o motivo pelo qual as pessoas buscam o conhecimento e a sabedoria. E chegou a uma conclusão desalentadora:
“Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do vento” (Eclesiastes 4.4).
Num certo sentido, Salomão estava antevendo o que hoje chamamos “as vaidades da academia”. No fundo, é a mesma coisa: na academia há pessoas que procuram avançar e distinguir-se em suas carreiras, ajuntando mais e mais títulos e construindo currículos quilométricos, por causa da competição, da inveja em relação aos outros. É claro que esta seria uma generalização injusta. Mas, sem dúvida, ela toca em um nervo exposto, que fica no mais íntimo do coração, no âmbito das motivações. A falta do verdadeiro espírito do pesquisador entristeceu Salomão, ao perceber que muito se faz por causa da inveja.
Mas o desânimo do nosso pesquisador judeu não terminou ai. A conclusão a que chegou foi esta:
“Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne” (Eclesiastes 12.12).
O que teria levado um pesquisador tão brilhante a considerar o resultado de seu trabalho enfadonho, tristeza e vaidade? É que ele percebeu que a busca do conhecimento e da ciência per si não é capaz de satisfazer os anseios mais profundos da alma humana. Quando, porém, percebeu que o conhecimento deve ser buscado dentro de um contexto maior, em que Deus é o referencial, conseguiu perceber sentido na vida e achar o seu fator unificador:
“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer. De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Eclesiastes 12.1 e 13-14).
Salomão concluiu que a suma de todo o conhecimento é o temor a Deus, que se expressa em obediência voluntária à sua vontade. É preciso explicar que este temor não é a mesma coisa que medo, mas um respeito profundo que parte de um coração agradecido e confiante.
A tabela abaixo, tirada da Bíblia de Genebra (p. 777) resume de maneira clara e inteligente o ensino do sábio Salomão sobre este ponto:
O Caminho da Verdadeira Ciência (sabedoria) (Eclesiastes 12.14)
Suma: sem temor (respeito) a Deus, tudo é vaidade.
Aprendizado sem Deus
Cinismo (1.7-8)
Grandeza sem Deus
Tristeza (1.16-18)
Prazer sem Deus
Desapontamento (2.1-2)
Trabalho sem Deus
Ódio pela vida (2.17)
Filosofia sem Deus
Vazio (3.1-9)
Eternidade sem Deus
Falta de realização (3.11)
Vida sem Deus
Depressão (4.2-3)
Religião sem Deus
Medo (5.4-7)
Riqueza sem Deus
Tribulações (5.12)
Existência sem Deus
Frustração (6.12)
Sabedoria sem Deus
Desespero (11.1-8)
TEMOR A DEUS                                                        REALIZAÇÃO (12.13-14)
A experiência do sábio Salomão não pode ser tomada como paradigmática para todos aqueles envolvidos em pesquisa e que se empenham na busca do conhecimento acerca da natureza, das origens e da vida. Há muitos que não acreditam em Deus e que contestariam cada um dos itens mencionados acima. Para eles, a ciência traz todas as respostas e satisfaz as questões mais profundas que perturbam, ainda hoje, a mente humana. Todavia, a persistência destes questionamentos mesmo em face aos avanços da ciência levantam a pergunta que não quer calar, “por que a ciência não consegue enterrar Deus”?[1] Faríamos bem em lembrar o que Salomão e muitos outros cientistas teístas nos dizem, que o ponto de partida da sabedoria é o temor a Deus.






[1] Aliás, título da obra do matemático de Oxford John Lennox, Por Que a Ciência Não Consegue Enterrar a Deus (São Paulo: Editora Mackenzie e Editora Mundo Cristão, 2011).

Augustus Nicodemus Lopes

Postado por Augustus Nicodemus Lopes.

Sobre os autores:

Dr. Augustus Nicodemus (@augustuslopes) é atualmentepastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana doBrasil e presidente da Junta de Educação Teológica da IPB.

O Prof. Solano Portela prega e ensina na Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, onde tem uma classe dominical, que aborda as doutrinas contidas na Confissão de Fé de Westminster.

O Dr. Mauro Meister (@mfmeister) iniciou a plantação daIgreja Presbiteriana da Barra Funda.