terça-feira, novembro 21, 2017

Augustus Nicodemus Lopes
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CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (6)

O Abandono da Verdade

“Então, lhe disse Pilatos: Logo, tu és rei? Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade? Tendo dito isto, voltou aos judeus e lhes disse: Eu não acho nele crime algum” (João 18.37-38).
A pergunta de Pilatos foi feita a Jesus, durante o interrogatório que ao final levou à sua crucificação. O que nos interessa no momento é o fato curioso e paradigmático que Pilatos não esperou para receber uma resposta à sua própria pergunta, “o que é a verdade”. Mas uma coisa fica clara: a busca da verdade sempre esteve presente nos grandes momentos da história. Todavia, nossa geração ficará conhecida como aquela que abandonou esta busca da verdade. Como Pilatos, faz a pergunta e volta as costas para não ouvir a resposta.
Nossa geração está fortemente influenciada por uma reação ao Racionalismo que marcou os séculos anteriores. As épocas anteriores à nossa foram caracterizadas pela cosmovisão romântica e pelo cientificismo materialista, bem como pelo marxismo, fascismo, positivismo e existencialismo.
Tudo isto teve origem no Iluminismo, movimento surgido no início do século XVIII, que era em vários aspectos uma revolta contra o poder da religião institucionalizada e contra a religião em geral. Predominou então o racionalismo e sua teoria que o conhecimento mais fundamental é baseado na razão, e que a verdade só pode ser alcançada através da análise racional, independente de dados empíricos, atitudes emotivas ou dogmas. A razão tornou-se a medida de todas as coisas.
Nossa época tende a rejeitar este conceito bem como a ideia de que existam verdades absolutas e fixas. Toda verdade é relativa e depende do contexto social e cultural onde as pessoas vivem. Os filósofos, estudiosos, teólogos, artistas, pensadores e autores famosos de hoje tendem a rejeitar o ideal das gerações passadas de que a verdade pode ser alcançada através da análise racional. Considera-se hoje que a promessa do Iluminismo, de encontrar com base na razão uma resposta unificada para a realidade, falhou completamente. Assim, abandonou-se a busca de verdades absolutas e fixas, que caracterizou o período anterior e rejeitou-se igualmente o conceito de dogmas e definições exatas. Cada pessoa analisa as coisas de acordo com o que pensa e o que crê.
Nesta visão atual, se busca uma sociedade pluralista, onde exista a convivência amigável entre visões diferentes e opostas. Isso é chamado de pluralismo inclusivista. Espera-se que as opiniões cedam espaço umas às outras, particularmente aos pontos-de-vista marginalizados, aqueles que foram calados por gerações pelas vozes dominantes da sociedade. Nessa sociedade pluralista e inclusivista, a opinião e as convicções de todos têm de ser respeitadas, porque a opinião de um é tão verdadeira quanto a opinião do outro. E já que não existem conceitos absolutos especialmente na área da moral e da religião, não se pode tentar convencer outro a mudar de religião ou de comportamento. Tornou-se politicamente incorreto criticar a conduta moral de alguém.
Todavia, esta desistência de se alcançar a verdade, em todas as áreas da vida, trouxe consigo consequências visíveis em muitos dos campos do saber, da vida, do comportamento e na educação.
Primeiro, criou um caos epistemológico. Não se pode mais falar na possibilidade da compreensão verdadeira de textos antigos e modernos. Se levada a sério, esta teoria significaria o fim da possibilidade da transmissão de conceitos, ideias, e verdades de uma geração a outra, e mesmo de uma pessoa à outra, através das palavras escritas. Pensem no que isto significaria na área de educação.
Segundo, o abandono da busca da verdade e a sua possibilidade, traz em seu bojo o desespero existencial, sob a forma da incerteza da verdade, da realidade e da própria existência, o que joga as pessoas numa esquizofrenia prática, tendo por um lado de conviver com verdades absolutas no dia a dia – tais como sinais de trânsito e normas da empresa – e o relativismo absoluto que domina as demais áreas.
Terceiro, ao se perder a esperança de que existam verdades absolutas, as expressões humanas artísticas, como a música, a arte, a poesia, o cinema, o teatro, acabam por refletir este desespero existencial, como se percebe claramente na obra de muitos artistas antenados para o mundo de hoje. Alguns mais honestos conseguem perceber uma inconsistência ética no seu comportamento. É comum vermos artistas negando a verdade absoluta e, ao mesmo tempo, lutando pelos “direitos humanos” ou pelo estabelecimento da “justiça”, especialmente nos países do terceiro mundo.
Quarto, com o abandono das verdades absolutas, não há parâmetros objetivos a serem seguidos. Contudo, o ser humano tem sempre que possuir um paradigma, porque ele é dependente de algo a que seguir. O parâmetro passa ser o sentimento. Daí começou a surgir a ideologia do “sentir-se bem”, o que inevitavelmente acaba por levar ao egoísmo, que busca sua felicidade à custa do bem dos outros.

O grande desafio para a universidade é entender os tempos em que vivemos e fazer jus ao nome universidade, que originalmente designava o conceito de que existiam verdades absolutas que uniam e davam coerência à enorme variedade dos campos do conhecimento. No caso de universidades confessionais cristãs, lembremos que a visão cristã de mundo pretende oferecer este referencial unificador e balizador.
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sábado, novembro 18, 2017

Mauro Meister

O Legado de Calvino

Quais foram, afinal, as contribuições de Calvino para o campo da exegese bíblica? Ao contrário da imagem rígida transmitida pelas gravuras que retratam a face do reformador, somada à densidade das Institutas e às suas asseverações contundentes encontramos nos seus comentários (especialmente no de Salmos) a face e voz de um homem que compreende profundamente os senti- mentos da alma. Ele mesmo afirma na introdução aos Salmos que denomina este livro “Uma anatomia de todas as partes da alma”, e por certo ele escrutina a sua própria alma em seus comentários. Aliás, é na dedicatória do comentário de Salmos que encontramos alguns raros e preciosos dados autobiográficos de Calvino. O tom de denúncia contra o erro nunca é esvaziado, mas a voz do pastor está sempre presente.
Assim, o primeiro legado de Calvino na área dos princípios de interpretação e exegese do texto bíblico é proveniente do seu propósito ao desenvolve-los: entender a Palavra de Deus e faze-la clara ao seu povo por meio da pregação. Para tanto, ele parte do mais alto apreço ao valor das Escrituras, numa época em que a mesma era colocada abaixo da autoridade da Igreja Romana e sua tradição. Na luta contra essa avassaladora tradição, o reformador sabia que não podia expor a Escritura meramente com o poder humano. O verdadeiro intérprete e expositor é um instrumento nas mãos do Deus todo-poderoso, transmitindo com fidelidade a vontade do seu autor. Logo, devemos apontar como legado de Calvino, em primeiro lugar, um legado pastoral: a interpretação para a pregação. A evidência clara disto está no fato de que seus comentários foram escritos para a pregação bíblica e são fruto da mesma. Resta-nos, no presente tempo, aprender com Calvino que o estudo da Palavra não é um fim em si mesmo. Com o advento do liberalismo, o estudo da Escritura tornou-se mero exercício acadêmico, desvinculado do compromisso da fé́, voltado mais para a satisfação das inquirições especulativas da mente humana do que para o conhecimento do Deus que se revela nas Escrituras. Com certeza, para Calvino essa busca seria vã̃ e inglória.
A segunda grande contribuição do reformador foi a sua incansável busca do sentido pleno do texto bíblico e a sua tentativa de livrar-se da interpretação alegórica e seus danos para a igreja. Isto não implicou, para Calvino, em interpretação literalista. Ele via a necessidade de uma interpretação simples que compreendia o escopo e a abrangência do texto, a intencionalidade do autor e a mensagem completa da Escritura. Acredito que esta contribuição específica de Calvino nos aponta em duas direções importantes. Primeiro, para o entendimento de que a mensagem da Escritura não se encontra numa compreensão rígida do texto bíblico, mas em uma compreensão fiel do texto, que considera todo o contexto e a dimensão divino-humana que ele carrega. Sobre os “ombros de gigantes”, usando de ferramentas literárias contemporâneas, não contraditórias ao conceito da inspiração das Escrituras, creio que temos como dar seguimento ao que Calvino começou em seu tempo: continuar na busca do sentido pleno do texto bíblico. Por outro lado, como Calvino fez, devemos aprender a respeitar o legado que nos foi deixado pelos antepassados, aprendendo com eles.
A terceira grande contribuição que vemos da parte de Calvino, na exegese que ele mesmo praticou, foi a sua forma de exposição, tanto da exegese em si (seus comentários) quanto do seu fruto (os sermões). Certamente a sua rejeição da retórica frívola, em favor de uma retórica sóbria e inteligente, deveria nos ensinar a ensinar. Nos seus sermões, Calvino entregou à congregação de Genebra uma dieta constante de ensino bíblico em exposições consecutivas. Para tanto, precisava primeiro aplicar-se à exegese do texto. Com isto não estou defendendo uma exposição textual versículo a versículo como método de ensino. Por outro lado, estou defendendo a exposição consecutiva de livros inteiros da Bíblia. Assim, todo o conselho de Deus será́ ensinado e os temas e trechos que constrangem o pregador não poderão ser evitados.
Uma quarta grande contribuição do reformador de Genebra foi o seu apreço pelas línguas originais e seu papel na compreensão do texto. Hoje, temos excesso de ferramentas e escassez de bons intérpretes nos púlpitos das igrejas locais. Muitas vezes as línguas bíblicas têm sido uma mera formalidade dos estudos acadêmicos e preparatórios, isto quando não são totalmente abandonadas. Não só́ devemos aprender as línguas, mas aprender a usar com competência o universo de ferramentas para o estudo das línguas originais que sequer se imaginava estariam um dia disponíveis.

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Muitas outras foram as contribuições de Calvino no campo da exegese bíblica. O simples fato de que seus comentários, publicados há quase 500 anos, continuam a ser traduzidos e reimpressos em várias línguas é evidência suficiente de que seu legado é permanente para a igreja cristã e sua história.
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quinta-feira, novembro 16, 2017

Mauro Meister

Esse Olhos Irlandeses Não Piscam (uma matéria sobre a questão do aborto)

Esse Olhos Irlandeses Não Piscam

Phelim McAleer & Ann McElhinney: Jornalistas Merecedores do Nome


by Terrell Clemmons

Tradução por Ana Boechat Wiebe

Phelim McAleer estava na Pensilvânia no começo de 2013 fazendo uma série de exibições do seu filme FrackNation. Como ele geralmente fazia quendo viajava, procurou no jornal local por casos judiciais em andamento, e um caso sobre um médico na Filadélfia chamou sua atenção. E aconteceu que num dos seus dias de folga entrou no tribunal onde o abortista Kermit Gosnell estava sendo por uma série de acusações, incluindo (mas não limitado a) assassinato, infanticídio, e violações múltiplas da lei estadual de abortos.

Phelim tinha visto muito nos seus vinte e cinco anos de jornalismo (ele começou sua carreira numa parte da Irlanda do Norte conhecida como “Território Bandido”), mas a evidência que ele viu na Sala 304 do Centro de Justiça da Filadélfia ultrapassou tudo o que ele havia encontrado anteriormente. As fotos exibidas numa telona – fotos de bebês bem formados, alguns cujo o pescoço tinha sido cortado com uma tesoura depois de nascerem vivos – eram mais horríveis que qualquer outra coisa que ele já tinha visto. Tudo isso já chocava por si só, mas foi ainda mais espantoso pra ele, como jornalista, ver que a galeria de imprensa atrás dele estava completamente vazia. Não havia nenhum jornalista de nível nacional cobrindo este caso. Nem um. Como assim?

Ele voltou pra casa em Los Angeles e contou para sua parceira e também esposa, a jornalista Ann McElhinney, que tinha encontrado o próximo projeto em que eles trabalhariam. Esse assunto era território desconhecido pra eles, totalmente fora da sua zona de conforto. Além do que, tanto ela quanto Phelim sempre se consideraram neutros com respeito a questão do aborto. Por que então entrar no ninho de vespas?

De qualquer forma, Phelim pediu as transcrições do tribunal e Ann os leu. Mais tarde, ela concordou que sim, eles iriam fazer um filme. Foi mais que uma concordância ou uma aptidão compartilhada. Foi uma convicção. Tinham uma informação importante de interesse público, e era uma vergonha ninguém estar publicando a respeito. Um filme sobre isso teria que ser feito; assim sendo, eles fariam.

Verdade – Falando no Interesse Público

Seria um empreendimento controverso, mas Phelim e Ann não eram amadores em cobrir controvérsias. Ambos nativos da Irlanda, tinham começado com a imprensa escrita, mas depois passaram a ser documentaristas. Para uma das suas primeiras produções, The Search for Tristan’s Mum, Ann se infiltrou secretamente no corrupto tráfico de bebês na Indonésia. Como resultado da sua investigação, Tristan retornou para a sua mãe biológica e os traficantes que venderam o bebê, colocados na cadeia. 

Enquanto eles moravam na Romênia, no começo dos anos 2000, um alvoroço surgiu sobre uma mina de ouro na Transilvânia chamado de Projeto Rosia Montaña. Eles viram os ambientalistas ocidentais e grupos ativistas como o Greenpeace entrar com suas agendas, falando no lugar dos moradores como se esses não pudessem falar por si mesmos. Pior ainda, a mídia não estava reportando a verdade do assunto – que a vasta maioria dos locais queriam muito a mina.

A situação da Rosia Montaña provocou um tipo de conversão momentânea de 2 níveis. Eles viram que (1) o capitalismo era o sistema econômico que melhor se adequava pra tirar as pessoas da pobreza, e (2) que o jornalismo convencional não só estava fazendo um trabalho de péssima qualidade ao reportar a verdade mas era, certamente, corrupto, na medida que a narrativa desses ambientalistas externos estava sendo relatada, em vez da atual realidade do que acontecia. Então, em 2006, eles lançaram Mine Your Own Business, que contou a verdade sobre a vila mineira e também inspecionou outros projetos de mineração do mundo em desenvolvimento, que estavam sob ameaça da oposição por poderosos interesses externos.

Continuando com o tema do Grande Ambientalismo e o efeito que pode ter nas comunidades empobrecidas, em 2009 eles produziram Not Evil Just Wrong, que pesquisou e criticou a histeria sobre o aquecimento global. Então, em 2013, veio o FrackNation, na qual Phelim encarou ameaças, policiais e ações judiciais falsas ao contar as histórias dos americanos em zonas rurais cujos meio de subsistência estavam em risco por causa da fracturação hidráulica (NT. um método de extração de gases de rochas rasas).

Logo, enquanto o julgamento de um médico abortista parecia ser a mudança de direção num nível mais básico, foi, na verdade, a continuação dos trabalhos jornalísticos de reportar os fatos, histórias que os principais jornais estavam reportando erroneamante, ou, no caso de Gosnell, ignorando completamente.


Descoberta Acidental

Ironicamente, a “Casa dos Horrores” de aborto, como as Sociedade das Mulheres Médicas da Filadélfia, no número 3801 Lancaster Avenue vieram a ser conhecidas, também foi descoberto acidentalmente. Kermit Gosnel tinha estado sob investigação por estar vendendo receitas médicas ilegais no começo dos anos 2010, quando Tosha Lewis, um informante recrutado como funcionário da clínica do Gosnell, casualmente mencionou que uma mulher asiática tinha falecido na clínica uns meses atrás. Tinha algo na sua morte, de acordo com Tosha que “não parecia certo”. Os investigadores da narcóticos foram procurar nos relatórios policiais, mas não havia nenhum relatório. Esse quebra-cabeças levou a mais perguntas, em seguida a mandados de busca e, então, finalmente a coordenação de uma busca que incluiu os investigadores da narcóticos, o Departamento de Saúde do Estado da Pensilvânia, a Agência Federal de Controle de Drogas, e o FBI – no total, mais de 20 participantes.

Eles entraram num verdadeiro pesadelo acordado. Um gato dominava o pedaço e o cheiro de fezes e urina de gato junto com fenaldeído dominavam no ar. Havia sangue no chão, urina nas escadas e pilhas de lixo em todo o lugar. As cadeiras, cobertores, e toda a superfície estava coberta de pelo de gato, e o equipamento médico era anti-higiênico, antigo, enferrujado e jogado ao acaso, num variado estado de destruição.

Quanto mais ele olhavam ao redor, pior ficava. Um armário de metal guardava jarros com pés que foram cortados de bebês. Geladeiras e freezers estavam espalhados sobre o pavimento – junto com um labirinto contendo mais restos de fetos ensanguentados – eles foram colocados em jarros de água usados, jarros de leite, potes de comida de gato, sacolas plásticas e jarros de suco. O porão abrigava restos de fetos empilhados até o teto.

Parecia coisa de filmes de terror, mas esse não era um set de filmagens de Hollywood. Era vida real. Mulheres semi-conscientes gemiam na sala de espera, enquanto que nenhuma das pacientes pós operadas estavam conectadas a qualquer aparelho de monitoramento. Duas estavam com um sangramento tão forte e em estado de choque que os paramédicos foram chamados, apenas pra descobrir que a porta da saída de emergência havia sido trancada com cadeado, e ninguém encontrava a chave. 

Enquanto isso, Gosnell queria fazer um aborto ao mesmo tempo que os investigadores faziam seu trabalho. Quando ele terminou, sentou-se em sua mesa com luvas cirúrgicas rasgadas e ensanguentadas e comeu seu jantar, gesticulando com seus hashi enquanto respondia as perguntas dos investigadores.

Claramente a equipe havia tropeçado numa cena de crime que foi além da corrida das drogas e uma more suspeita.

Documentando uma Tragédia Americana

No final, a máquina do sistema de Justiça da Pensilvânia enviou Kermit Gosnell para prisão perpétua sem direito a liberdade condicional. O desafio para Phelim e Ann foi como documentar verdadeiramente e com tato as múltiplas realidades inquietantes deste caso.

Com grande profissionalismo eles entrevistaram oficiais da polícia local, da Agência de Fiscalização de Drogas, o FBI, as agências de Supervisão do Estado, juntamente com os funcionários da clínica e ex-pacientes. Por fim, Ann decidiu escrever um livro sobre o caso, além de fazer o filme. “É perturbador que essa história não seja amplamente conhecida”, ela explicou. E houve aspectos do caso que não estariam no filme, mas que seriam gravados. “As pessoas deveriam saber essas coisas”, ela disse, com seu sotaque Irlandês acentuando sua convicção.

O resultado é Gosnell, A História Não Contada do Serial Killer mais Produtivo da América, uma virada de página jornalística pro caso, que é necessário ler para crer. E q
uando você acha que não pode ficar pior, fica. Ao longo do caminho Ann expõe uma falha atrás da outra, claramente nomeando os oficiais cujas responsabilidades era fazer cumprir a lei ou garantir que os padrões médicos que protegessem as mulheres e crianças fossem mantidos, mas que ignoraram os sinais claros, fizeram vistas grossas ou desprezaram a lei. A mídia local ou nacional não fez melhor. 

Ela admite que foi difícil:
Ler o testemunho e verificar a evidência na pesquisa pra esse livro e pra escrever o script do filme foi brutal. Eu chorei sobre  meu computador. Eu orei o Pai Nosso na minha mesa de trabalho. Eu não sou um exemplo de santidade – não havia orado por muitos anos – mas quando fui confrontada com o pior dessa história eu não sabia o que mais poderia fazer.

Mais Momentos de Conversão

Até Gosnell, ela achava os ativistas pró-vida desagradáveis – muito fervorosos, muito religiosos, talvez até manipuladores. Afastem-se com suas fotos assustadoras, pensava, tenho certeza que as fotos são manipuladas. Depois de saber sobre o caso do Gosnell, então, tudo mudou. As fotos mostradas no tribunal não eram de ativistas. Elas foram de detetives policiais, examinadores médicos e funcionários da clínica de Gosnell que testemunharam sob juramento.

Semelhantemente, as vozes no seu livro e no filme não são vozes pró-vida. O testemunho mais poderoso no julgamento, Ann disse, foram aqueles dos próprios médicos abortistas, ao descrever o que constituía “um bom aborto legal”. Quase todos os jurados eram pró-escolha no começo, mas alguns deixaram escapar suspiros audíveis quando uma testemunha especialista em aborto explicou detalhadamente o que ela fez. Não foi só Phelim, Ann, e membros do juri que reexaminaram suas opiniões. “Procuradores, diversos jornalistas e até o próprio advogado de Gosnell experimentaram mudança de coração e mente”, Ann escreveu. 


"Basicamente, uma vez que você descobre a verdade sobre o Aborto, você deixa a narrativa fácil de ser a favor do aborto muito rápido”, disse Phelim. “Aborto é como um artigo de fé pra algumas pessoas, sabia? Eles não pensam muito sobre isso, mas eles apenas são pró-aborto. Posso dizer, a fé deles foi quebrada. A fé de todos foi quebrada.”

Mudar a mente das pessoas, no entanto, não é uma coisa que eles pretendem fazer. “Costumava-se dizer no meio jornalístico, se você quer mandar uma mensagem, mande um Telex”, Phelim disse. “Nós não estamos aqui para mandar uma mensagem. Nós estamos aqui contar a verdade”. Então, quanto a Gosnell, “nossa mensagem, tanto para quem é pró-vida quanto pró-escolha é, encontre a verdade. Tome uma decisão informada. Porque quando você encontrar a verdade sobre o aborto, sendo pró-aborto, essa verdade vai abalar sua confiança nesta sua posição. E é exatamente isso que o jornalismo deve fazer”.


Tanto Phelim quanto Ann esperam que através do livro e do filme, as pessoas encontrem a verdade e que algo como a clínica de Gosnell nunca mais aconteça. “A verdade é muito, muito importante”, Phelim diz, “e a verdade te libertará. Isso é o que eu quero”.


Terrell Clemmons é um escritor freelance e blogueiro em apologética e questões de fé.
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segunda-feira, novembro 13, 2017

Augustus Nicodemus Lopes
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CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (5)


Um Apelo em Favor da Verdade

Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32).

A busca da verdade e sua divulgação é sem dúvida um dos objetivos de toda instituição de ensino, e muito mais daquelas instituições que se declaram confessionais. Todavia, nossa época entrará para a história do mundo como aquela em que a tentativa de relativização da verdade foi feita em todos os âmbitos da vida, deste a questão dos valores morais até aqueles considerados mais subjetivos, como os conceitos religiosos.

Nem sempre as pessoas pensaram de maneira relativista. Não faz muitas décadas, era possível se dizer a uma adolescente de 16 anos “Comporte-se”, e ela saberia perfeitamente o que aquilo queria dizer. A chegada da assim chamada pós-modernidade colocou em questão não somente a existência da verdade, como também a possibilidade de conhecê-la e, mais ainda, a necessidade para isso. E para muitos, podemos acrescentar que falta o desejo de conhecer a verdade.

Todavia, percebe-se uma grande incoerência e hipocrisia em nossa sociedade quando clama pela verdade, luta pela verdade, naquilo que lhe interessa, e quando chega às questões morais, espirituais e religiosas, as pessoas são possuídas subitamente por um espírito de relativismo que se recusa a ser exorcizado a não ser mediante forte persuasão.

Todos nós demandamos a verdade em todas as áreas da vida. Queremos que a esposa, o marido e os filhos nos digam a verdade, queremos que o médico nos diga a verdade, queremos que os corretores da bolsa de valores onde aplicamos o nosso dinheiro nos digam a verdade quando nos recomendam as ações nas quais aplicar, queremos que o juízes e os árbitros façam um trabalho correto e verdadeiro, queremos que os nossos empregadores sejam verdadeiros e nos paguem com justiça, queremos que o noticiário, a mídia, e a imprensa sempre nos digam a verdade, bem como os rótulos de remédios e as sinalizações nas estradas e rodovias.

Quando desconfiamos que a verdade nos esteja sendo negada, ficamos indignados, sentimo-nos traídos, e também que os nossos direitos como cidadãos nos foram tirados. Consideramos a falsidade, a mentira, o faltar com a verdade, como sendo crimes, e a mentira até foi incluída na lista dos sete pecados capitais da hamartologia católica.

Quando demandamos que as pessoas nos digam a verdade, estamos pressupondo que a verdade existe, que é possível de ser reconhecida, e que é válida para todos. Todavia, quando chegamos aos labores acadêmicos, quando assumimos nossa identidade de intelectuais, às vezes cometemos uma grande incoerência, quando passamos não somente a aceitar, mas também a ensinar que a verdade não existe, que ela é relativa, que não existem verdades absolutas, especialmente no campo da moral e da espiritualidade. Até quando dizemos: “não existe verdade!” queremos que as pessoas recebam essa declaração como verdadeira! E quando dizemos que tudo é relativo, ficaremos bravos se alguém considerar essa declaração como sendo também relativa.

Por que exigimos verdade em tudo, exceto na moralidade e naquilo que é transcendente? Por que relativizamos a verdade quando estamos falando sobre moralidade e religião, mas nunca pensamos em fazê-lo quando estamos falando com um corretor de ações da bolsa de valores sobre o nosso dinheiro ou com médicos sobre a nossa saúde?

Sobre isso, gostaria de citar neste contexto alguns pontos sobre a verdade que Norman Geisler chama de “As verdades sobre a verdade”, em sua obra Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu (p.38). São eles:

1) A verdade é descoberta e não inventada. Ela existe independentemente do conhecimento que uma pessoa tenha dela. Por exemplo, a lei da gravidade já existia antes de Newton.

2) A verdade é transcultural. Se alguma coisa é verdadeira, então é verdadeira para todas as pessoas, em todos os lugares, em todas as épocas, como por exemplo, o resultado de 2 + 2.

3) A verdade é imutável, embora a nossa crença sobre ela possa mudar, como por exemplo, quando passamos a acreditar que a terra era redonda em vez de plana. A verdade sobre a terra não mudou. O que mudou foi nossa crença sobre a forma da terra.

4) As crenças das pessoas não podem mudar a verdade, por mais honestas e sérias que sejam. E nem a verdade é afetada pela atitude de quem a professa ou de quem a nega.

5) Todas as verdades são verdades absolutas, embora pareçam relativas. Por exemplo, “Eu, Pedro, senti muito calor hoje”. Embora a sensação de calor de Pedro seja relativa, permanece verdadeiro em todo lugar do planeta que no dia de hoje ele sentiu o calor.

6) A verdade permanece a mesma, o que é relativo é a nossa percepção dela. Contudo, mesmo a relatividade da percepção é menor do que geralmente se pensa, pois as pessoas costumam perceber a realidade e a verdade de uma maneira muito mais unânime e comum do que nos querem fazer acreditar.

Minha palavra aqui, portanto, é em defesa da verdade, da coerência, da consistência. Formadores de opinião são responsáveis por manifestar coerência em todos os departamentos da vida e da conduta. Se exigimos verdade dos outros, assumamos o que está implícito: a existência da verdade, a possibilidade de que ela seja conhecida, e a sua necessidade, para que possamos viver relacionamentos verdadeiros, no mundo verdadeiro, para que sejamos pessoas verdadeiras e livres, pois como disse Jesus, “A verdade vos libertará”.

E se alguém fizer a famosa pergunta de Pilatos a Jesus, "o que é a verdade," espero que não faça como Pilatos, que virou as costas e se afastou de Jesus, antes que esse pudesse responder. Se Pilatos tivesse ficado, teria ouvido: "EU sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14:6).  
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